31/08/2009



Carmen exigia o melhor. estudou a quarta classe e veio para cá, chaves, muito nova para guardar e administrar os bens da família. o pai, padeiro na venezuela desde há muito, falecera no mês passado levando a esposa; diz-se que por amor adormeceu ela horas depois. e foi satisfeito, o pai, consigo próprio e com o pequeno império que Carmen construíra naquela terra que era tão sua. deus estava à espera, a mando dela, a filha mais velha e mais imponente. um dia até à mãe levantara a voz, no limite do respeito fundo que lhe guardava mas por bem da família unida que mantinham.

apesar do luto, Paloma casou ontem, a filha mais nova. Carmen escolheu o cunhado como fez com os restantes adornos da casa, pois Carmen exigia o melhor. sabia que Paloma fora privada da inteligencia, que a arte e a culinária se lhe resumiam a um par de bricos de pérola, mas era o seu sangue e isso exigia a sua mão.

a sala de estar ofereceu-lhes a fotografia, tão bem emoldurada, já hoje, junto do relógio no móvel do fundo a retribuir. a águia empalhada fora o único pedaço da herança que Paloma recebeu por prenda e fica, agora, águas de festas passadas, junto da moldura.

organizada e limpa a família, sobram os seus lábios vermelho escuro.
mas a exigência de Carmen mantém-na solteira.
não saberia escolher o seu próprio amor.

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